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Bateria à Luz da Antropologia e da Bíblia
Vanderlei Dorneles
da Casa Publicadora
Brasileira
Muitas
pessoas entendem a polêmica do uso da bateria no culto a partir da história
da utilização de outros instrumentos por parte dos cristãos. Piano,
violão e órgão tiveram um período de rejeição e mais tarde
terminaram por ser aceitos como adequados à liturgia. O acompanhamento
instrumental em si já foi considerado impróprio para a música litúrgica
cristã, quando muitos consideravam que o único instrumento adequado à
adoração é a voz humana. Da mesma forma, a bateria estaria hoje nesse
período de questionamento que terminará com sua aceitação irrestrita
dentro da igreja.
Mas será que os motivos da polêmica quanto ao uso da bateria são os
mesmos dos demais instrumentos? Todos os instrumentos são iguais quanto
ao seu potencial no louvor e na influência que exercem sobre a mente?
A proposta deste breve artigo é discutir um pouco do significado da
bateria (ou tambor) nos cultos antigos e por que ela foi tirada do grupo
de instrumentos usados no templo de Salomão. As fontes do estudo são
trabalhos de pesquisadores e antropólogos sobre religião e a Bíblia.
Interesse especial é dado à relação entre tambor e xamanismo (ou
possessão). Essa relação seria mera superstição ou um fato ainda
hoje vivido nos cultos pagãos?
Tambor e transe
Um estudo dos cultos de mistérios, das cerimônias nativas e dos
rituais da África esclarecem que (1) a música ritual é basicamente o
som do tambor, (2) essa música é acompanhada de dança e (3) o transe
é o objetivo pretendido e alcançado com o ritual primitivo.
A religião primitiva tem no encontro (possessão) com a divindade seu
clímax e sua "virtude". As leis e os hábitos mantidos por
essas religiões têm que ver com a expectativa do encontro ou transe.
Alimentos, atitudes ou hábitos que dificultam atingir o estado de
transe são em geral proscritos.
O antropólogo Francisco Sparta, em seu livro A Dança dos Orixás: as
relíquias brasileiras da Afro-Ásia pré-bíblica (São Paulo: Harder,
1970), discute amplamente a relação entre dança, tambor e transe. Ele
diz que "o transe religioso é provocado pela preparação, pela
reclusão, pelas mortificações, pelos banhos, pela dança, pelos
tambores" (pág. 50). Falando da cerimônia dos orixás, Sparta diz
que "as mulheres dançam, saltam e se agitam" e "os
tambores acompanham excitando" a cerimônia e os corpos (pág. 35).
Definindo o culto dos orixás, Sparta afirma que "a música e a dança
são os principais fatores dos fenômenos de possessão que se observam
nestes cultos mágicos". "O ritmo violento dos tambores e a
repetição intérmina dos cantos, produzindo fadiga de atenção e
amortecimento conseqüente da consciência, levam iniciados a um
verdadeiro estado de hipnose. ... A fadiga produzida pela dança
prolongada, agravada pelo toque frenético de andarrum, condiciona o
estado de vertigem que favorece a hipnose precursora do transe ou
possessão" (pág. 57).
Num simpósio de psiquiatria transcultural, realizado em 1968 na Bahia e
em seguida no Recife, o pesquisador William Sargant argumentou a favor
da relação entre tambor e transe místico. Falou da "lavagem do cérebro",
como efeito da música percussiva dos rituais de transe. Mostrou
"cenas de possessão, filmadas em diferentes regiões da África e
da América Latina" e insistiu que o transe "é provocado pela
cadência da batidas de tambores". Como ilustração citou o caso
"de mulheres, na Inglaterra, que haviam entrado em transe apenas
escutando algumas gravações feitas por ele". Concluindo sua
apresentação, Sargant afirmou que, "derivado do culto negro é o
rock’and’roll, que provoca um efeito semelhante ao transe"
(citado por Sparta, págs. 56 e 57).
O maior historiador das religiões, do século 20, o romeno Mircea
Eliade, também sustenta a mesma idéia. Segundo ele, a obtenção de
conhecimentos místicos, nas religiões primitivas, está sempre
associada a um êxtase xamânico (ou seja, transe possessivo). Isso
"explica a importância capital da música" nos rituais.
"Os xamãs preparam o seu transe cantando e tocando tambor" (Mircea
Eliade, História das Crenças e das Idéias Religiosas, Tomo I, Vol. II
[Rio de Janeiro: Zahar, 1983], pág. 106). Aguiar Bastos, outro antropólogo,
diz que "o tambor não é um simples instrumento de ritmo quanto à
sua mais antiga tradição ligada às danças sagradas. Ele é, por sua
vez, um instrumento de correspondência, isto é, de comunicação entre
o homem e os seres misteriosos que governam a natureza" (Aguiar
Bastos, Os Cultos Mágico-Religiosos no Brasil [São Paulo: Hucitec,
1979], pág. 99). Em seu mais respeitado trabalho sobre as religiões
primitivas, Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase, Mircea Eliade
acrescenta que "o tambor desempenha papel de primeira ordem nas
cerimônias xamânicas. Seu simbolismo é complexo, suas funções mágicas
são múltiplas". Ele é "indispensável ao desenrolar da sessão,
seja por levar o xamã ao ‘Centro do Mundo’, por permitir que ele
voe pelos ares, por chamar e ‘aprisionar’ os espíritos, seja,
enfim, por que a tamborilada permite que o xamã se concentre e
restabeleça o contato com o mundo espiritual que está prestes a
percorrer" (Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase, pág.
194).
Na terminologia religiosa do paganismo, o indivíduo que incorpora uma
divindade é muitas vezes chamado de "cavalo do orixá", ou
seja, alguém em quem o espírito "cavalga". Dada a relação
do tambor com os espíritos, também este instrumento é chamado de
"cavalo do xamã" (Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase
[São Paulo: Martins Fontes, 1998], pág. 199).
Som único
Eliade diferencia ainda o tambor dos demais instrumentos musicais que
eventualmente tenham alguma participação nos rituais, como aquele que
proporciona uma experiência de transe. "O tambor xamânico
distingue-se justamente de todos os outros instrumentos da ‘magia do
ruído’ por possibilitar uma experiência extática". O
historiador acentua o fato de essa experiência ser "preparada, na
origem, pelo encanto dos sons do tambor - encanto ao qual se atribui o
valor da ‘voz dos espíritos’ - ou de a ela se ter chegado em decorrência
da concentração extrema provocada por uma tamborilada
prolongada". Ele conclui: "Uma coisa é certa: o que
determinou a função xamânica do tambor foi a magia musical" (Xamanismo
e as Técnicas Arcaicas do Êxtase, pág. 200).
As religiões antigas e os cultos nativos estão permeados da idéia do
contato com os espíritos e da imortalidade da alma. O ritual é ocasião
oportuna não apenas para a incorporação da divindade, mas também
para o contato com o espírito dos mortos. Essas práticas foram
claramente proibidas por Deus a Israel, tão comuns e difundidas que
eram no mundo antigo. Mircea Eliade completa a descrição das
propriedades mágicas do tambor como fundamento da ponte entre o ser
humano e o mundo espiritual: "De qualquer modo, trata-se sempre de
um instrumento (o tambor) capaz de estabelecer algum contato com o
‘mundo dos espíritos’. É preciso entender essa última expressão
em seu sentido mais amplo, que engloba não apenas deuses, espíritos e
demônios mas também as almas dos ancestrais, os mortos e os animais míticos.
O contato com o mundo supra-sensível implica necessariamente concentração
prévia, facilitada pela ‘inserção’ do xamã ou do mago em sua
indumentária cerimonial e acelerada pela música ritual" (Xamanismo
e as Técnicas Arcaicas do Êxtase, pág. 205).
Muitas pessoas ignoram esse lado místico do tambor, apesar da clara
relação entre o instrumento e o transe místico ou fenômeno de
possessão ou ainda perda da consciência. O motivo é que as crenças
dos antigos têm sido caracterizadas como mera superstição. "A
era da razão e a mentalidade científica já demonstraram que tudo isso
é apenas mito", afirmam essas pessoas. No entanto, há uma
consideração indispensável. O racionalismo qualifica como mito a
religiosidade primitiva. E com isso, é fácil de concordar. Mas, da
mesma forma que o racionalismo qualifica as crenças pagãs como mito,
qualifica também a Bíblia, o poder da fé, o ministério e a ressurreição
de Cristo. Logo, se a ciência não tem razão ao dizer que o
cristianismo está fundado sobre mitos, também não deve estar certa
quando quer desmistificar as demais religiões.
Quanto à relação entre som do tambor, danças e manipulação da
mente, Ellen White colabora com a seguinte predição: "As coisas
que descrevestes como tendo lugar em Indiana, o Senhor revelou-me que
haviam de ter lugar imediatamente antes do fim do tempo da graça.
Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música
e dança. Os sentidos dos seres racionais ficarão tão confundidos que
não se pode confiar neles quanto a decisões retas" (Mensagens
Escolhidas, vol. II [Casa Publicadora Brasileira], pág. 36). Acrescenta
ainda que "Satanás opera entre a algazarra e a confusão de tal música,
a qual, se devidamente dirigida, seria um louvor e glória para Deus.
Ele torna seu efeito qual venenoso aguilhão da serpente" (Ibid., pág.
37). O que ocorreu em Indiana foi um congresso, onde o louvor foi
colaborado com o uso de tambores, ocorrendo algumas experiências de
transe.
Quanto à função e ao uso difundido do tambor ou qualquer outro
instrumento percussivo nas religiões primitivas ou pagãs, não parecem
restar dúvidas. Sua função mística e a maneira como favorece a busca
do transe ficam bastante claras mediante os textos citados.
Possivelmente o que mais dificulta a compreensão do assunto por parte
dos cristãos seja a menção do uso do tambor e de danças entre o povo
de Israel.
O tambor na Bíblia
Após a passagem pelo mar Vermelho, Miriam e as mulheres de Israel dançaram
ao som de tamboris (Êxodo 15:20). Outras mulheres dançaram com
tamboris após vitórias de Saul e Davi (1Samuel 18:6). O Salmo 149
(verso 3) incentiva a louvar ao Senhor com harpa e adufe.
A questão a ser respondida é: a menção de um costume mantido ou
praticado pelos servos de Deus no passado é suficiente para autorizar o
mesmo costume para todos os tempos e lugares? A resposta clara é
"não". Pois, os servos de Deus no passado, sob a influência
da cultura prevalecente, usaram bebida forte, tiveram mais de uma mulher
e mantiveram escravos, entre outras coisas. Da mesma forma que a revelação
posterior, corroborada por estudo e reflexão, iluminou esses fatos que
aos poucos foram sendo eliminados, a questão da música também deve
ser objeto de estudo para compreensão e juízo acertados.
Tanto a presença do tambor (ou da percussão) quanto a sua ausência em
circunstâncias bíblicas específicas ajudam a indicar possíveis
caminhos para a compreensão do assunto.
Tambores e danças foram usados em ocasiões festivas, celebradas com
danças e muita alegria, segundo o costume da época (ver os textos
citados acima). Na condução da arca de Quiriate-Jearim até a casa de
Obede-Edom, houve música com tamboris e Davi dançou e se alegrou, ao
ritmo da banda (1Crônicas 13:8 e 2Samuel 6:5). Nessa viagem, tudo deu
errado. Os bois tropeçaram, a arca quase caiu e Uzá morreu ferido pelo
Senhor (1Crônicas 13:8 e 2Samuel 6:5). Davi ficou triste e se
perguntou: "Como trarei a mim a arca do Senhor?" (1Crônicas
13:12). Três meses depois, Davi juntou o povo para buscar a arca da
casa de Obede-Edom. Desta vez, ele orientou que ninguém conduziria a
arca, senão os levitas (1Samuel 15:2). Houve alegria, mas ao contrário
da primeira tentativa, desta vez a orquestra não teve tambor, mas
harpas, alaúdes e címbalos (1Crônicas 15:16). O transporte deu certo.
Davi quis fazer uma casa para Deus, mas não foi permitido. O rei era músico
e Deus deu orientações a ele para que tomasse todas as providências
para o templo, que Salomão edificaria. Entre essas orientações, Deus
determinou os instrumentos (címbalos, alaúdes e harpas) que deveriam
fazer parte da música do templo (2Crônicas 7:6 e 29:25). Davi fez
instrumentos para serem usados pelos levitas. É significativo o texto
de 2Crônicas 7:6, que diz: "...os levitas com os instrumentos músicos
do Senhor, que o rei Davi tinha feito, para louvarem ao Senhor...".
O artigo plural definido "os" indica um grupo específico de
instrumentos, que ainda são qualificados como "do Senhor".
Estes são os que Davi fez por ordem de Deus: címbalos, alaúdes e
harpas. A lista desses instrumentos aparece em diversas ocasiões,
sempre sem inclusão do tambor ou adufe (ver 1Crônicas 25:1 e 6, 16:5,
2Crônicas 5:12 e 13). Os únicos instrumentos que aparecem nas listas
dos usados no templo, além dos que foram confeccionados por Davi, são
as trombetas (2Crônicas 5:12 e 13 e 29:27).
A música que se fez no transporte da arca até Jerusalém, sem uso de
tambores, foi chamada de "música de Deus" (1Crônicas 16:41 e
42), enquanto que a banda que deu o ritmo da dança, quando Uzá morreu,
não recebeu essa adjetivação (ver 1Crônicas 13:8). No livro de Isaías,
há juízos pronunciados contra pessoas que celebravam festas com
embriaguez e música com tambores (ver Isaías 5:12 e 24:8 e 9).
Conclusões
O uso do tambor tem um propósito claro nos rituais nativos no sentido
de preparar o adorador e atrair os espíritos ou orixás. Historiadores
e antropólogos afirmam a função mágica da música produzida por ele
em função do preparo do transe místico. A única base para se afirmar
que a relação entre tambor e transe é supersticiosa é o ceticismo
científico, que, contudo, não ignora a virtude da percussão em
provocar estados alterados de consciência.
O estudo dos textos bíblicos que citam os instrumentos musicais
esclarece que o tambor não fazia parte da música do templo, por
orientação do próprio Deus a Davi. Sugere também que Deus não
proibiu as cerimônias ou celebrações em que as pessoas tocavam tambor
e dançavam. Embora não tenha sido reprovada por Deus, os fatos
relacionados com o santuário indicam que aquela não era a música
ideal para a adoração.
A exclusão do tambor no templo pode indicar também que esse
instrumento, por sua relação direta com o misticismo pagão e por sua
influência no sentido de embotar a consciência e o juízo, deveria
estar fora do culto que requer a lucidez da mente para o conhecimento de
Deus e compreensão de Sua vontade revelada.
Os textos bíblicos não afirmam que o uso da bateria ou do tambor seja
pecaminoso, mas os textos de Isaías 5:12 e 24:8 e 9 e os fatos
relacionados com o transporte da arca e com a música do templo deixam
esse instrumento sem recomendação. À luz de toda a Escritura, o texto
de Salmo 149:3 deve ser entendido como uma ordem para adorar a Deus, não
como uma ordem para adorar com o adufe, já que muitos outros
instrumentos são mencionados.
Uma vez que o templo de Israel era uma representação do santuário
celestial e do trono de Deus, a música na igreja hoje deve ter sua
referência maior na música usada nesse templo. Não só a música do
templo, mas tudo a que se fazia ali reproduzia a ordem, a beleza e a
perfeição do templo de Deus no Céu. O santuário terrestre
representava o templo celestial feito pelo próprio Deus. Portanto, a música
a ser executada ali perante o Senhor deveria ser diferente daquela usada
nas festas comuns.
E na igreja hoje? Ellen White nos lembra que a assembléia dos filhos de
Deus aqui na Terra (na igreja) tem o propósito de prepará-los para
aquela assembléia mais solene ainda (no santuário celestial). Diz ela:
"Para a alma crente e humilde, a casa de Deus na Terra é como que
a porta do Céu. Os cânticos de louvor, a oração, a palavra
ministrada pelos embaixadores do Senhor, são os meios que Deus proveu
para preparar um povo para a assembléia lá do alto, para aquela reunião
sublime à qual coisa nenhuma que contamine poderá ser admitida. Da
santidade atribuída ao santuário terrestre, os cristãos devem
aprender como considerar o lugar onde o Senhor Se propõe encontrar-Se
com Seu povo" (Testemunhos Seletos, vol. II [Casa Publicadora
Brasileira], pág. 193).
Notas:
[1] Conforme o dicionário Aurélio, bateria é a designação genérica
do conjunto dos instrumentos de percussão de uma orquestra ou banda.
[2] O tamboril é um instrumento de percussão, uma espécie de cítara
com seis cordas percutíveis com uma baqueta, e que serve para
acompanhar as danças regionais das Vascongadas (Espanha) e do Béarn
(França). O executante percute as cordas com a baqueta na mão direita,
e com a esquerda toca o galubé. Também pode indicar a própria dança
provençal ritmada pelo tamboril.
[3] O adufe é uma espécie de pandeiro (percussivo) quadrado sem
soalhas, feito de madeira leve, e com pele retesada dos dois lados. Ou
um antigo pandeiro quadrado, de madeira, com dois tampos de pergaminho,
que encerram fieiras de soalhas.
[4] O alaúde é um antigo instrumento de cordas dedilháveis, de origem
oriental, com a caixa de ressonância sensivelmente abaulada, sem
costilhas e em forma de meia pêra, e com a pá do cravelhame inclinada,
formando ângulo quase reto com o braço longo.
[5] Címbalo é a designação de um antigo instrumento de cordas ou um
instrumento constituído por dois meios globos de metal que se percutiam
um contra o outro; como pratos.
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