DUVIDANDO DA PALAVRA

Não é segredo que a igreja se encontra dividida em quase todos os pilares da fé. Cada vez menos se percebe que os lideres da igreja recorram à afirmação de que a divisão é apenas uma questão de semântica(1). São facilmente reconhecíveis as divisões claras e incompatíveis no que diz respeito a interpretação bíblica.
Não é a semântica que divide aqueles que acreditam que a Bíblia é um padrão infalível e os que tem dúvidas quanto a veracidade bíblica em áreas como a História e a Ciência, declarando, deste modo, que "a Bíblia é perfeita para os objetivos a que se propõe". Isto significara que a Bíblia é digna de confiança como guia para a salvação (o seu objetivo), mas, uma vez que não é um relato histórico ou cientifico, contém erros de fato nestas áreas. Não é somente a semântica que divide aqueles que acreditam nas claras afirmações da Bíblia e do Espírito de Profecia, afirmações essas onde dizem que existe um santuário celeste real e os que acreditam que o santuário que se encontra no céu não é literal. O que divide os que declaram que Cristo iniciou o Seu ministério no lugar santíssimo após a Sua ascensão e os que afirmam que Cristo só iniciou esse ministério em 1844 é muito mais do que simples semântica. Mais uma vez, a semântica não pode ser usada como explicação para a divisão que existe entre os que aceitam a inequívoca declaração do Espírito de Profecia onde diz que o homem do pecado inclui o Papado passado, presente e futuro* e aquele crescente número de Adventistas do 7° Dia que aceitam a versão jesuíta de que o homem do pecado é um personagem futuro, que aparecerá somente no fim do tempo. Afirmar que a semana da criação ocorreu há muitos milhares de anos é uma contradição relativamente as declarações específicas do Espírito de Profecia (mais de trinta vezes) que nos asseguram que este acontecimento se deu há cerca de 6000 anos. Isto não poderá ser reduzido ao nível de uma mera distensão semântica. Contudo, foi em matéria de justiça pela fé, a verdadeira essência da salvação, que se deu a mais intensa divisão de convicções na igreja Adventista do 7° Dia dos anos setenta e oitenta.
Os Adventistas do 7° Dia encontram-se agora divididos em relação à questão que procura averiguar se o homem conseguirá obedecer completamente quando, para isso, é capacitado pelo Espírito Santo. Seria arrojado da parte de qualquer ser humano incitar o ponto de vista onde afirma que, o que divide aqueles que humildemente acreditam na promessa de Deus,

O remanescente de Israel não cometerá iniqüidade. Sofonias 3.13

e os que crêem que "uma vida sem pecado é, na verdade, uma quimera(2). (Dr. D. Ford, Sinais dos Tempos, Edição Austral asiática, Fev. 1978), seja explicável em termos de semântica

Nenhum texto da Escritura poderá ser citado para reforçar os pontos de vista do novo adventismo, nomeadamente aquele que diz que não é possível obedecer-se completamente a lei de Jeová. Nenhuma passagem dos escritos da Irmã White valida este tipo de afirmações. Como, então, numa igreja que diz que a verdade se baseia somente num "assim diz o Senhor", se afirme que um cristão nascido de novo não poderá obedecer completamente? A fé do Advento não ensina que as obras são a base do mérito ou o fundamento da salvação, mas aceita o principio bíblico onde diz que somente os méritos de Cristo são a base para a salvação do homem. A Bíblia é clara quando diz que a santificação é vital para a preparação do homem para o céu, sendo esta uma condição necessária para a sua salvação. As tendências que tentam persuadir os Adventistas a aceitar este erro são multifatoriais. Algumas delas serão ilustradas mais adiante neste livro.
Em primeiro lugar, tem havido uma alarmante sobrevalorização no que diz respeito aos pontos de vista dos teólogos por causa da sua formação em teologia. Diz-se que eles são os peritos nesse campo e que, deste modo, os que não estiverem por dentro desses assuntos, devem apenas escutar o que estes profissionais teólogos têm para declarar. Tais pontos de vista podem parecer persuasivos num plano superficial, mas vindos de uma igreja que sempre acreditou que o princípio onde diz que "somente os pastores podem compreender e interpretar as Escrituras" não passa de um engano satânico, isto é um desenvolvimento muito surpreendente. Ainda mais intrigante e fato de que, os que afirmam tais coisas, se dizerem do lado da tradição protestante. Um dos grandes assaltos ao domínio clerical(3) da interpretação bíblica foi a afirmação protestante referente ao sacerdócio de todos os crentes. Tem sido os teólogos, através dos tempos, quem sempre, quase inevitavelmente, se prostrou na vanguarda da apostasia. Este deve ser um aviso solene para os Adventistas do 7° Dia zelosos.
É talvez o alto nível de especialização educacional na nossa igreja que encorajou esta crescente dependência dos teólogos como fonte de verdade. Acreditamos que um mecânico especializado em motores é a pessoa mais capacitada para reparar os problemas dos motores dos nossos carros. Aceitamos que um dentista, por causa da sua experiência, seja o homem mais capaz para nos aliviar a dor de dentes. Nesta linha de pensamento, poderemos aceitar cegamente que certo adestramento em Teologia predispõe um homem para o conhecimento da verdade escriturística.
Tal ponto de vista ignora quase totalmente toda a triste história da teologia. Na verdade, são poucos os teólogos que tem proclamado a verdade e muitos são os que se tem eloquentemente oposto as mais claras afirmações da Palavra de Deus. Todas as heresias doutrinais, desde a santidade do domingo a vida depois da morte, tem sido apoiadas por alguns teólogos. Se a verdade viesse somente através de um estudo formal, então certamente qualquer padre jesuíta que estudasse durante dezessete anos seguidos seria um guia seguro nas coisas de Deus. Contudo, apesar deste estudo intenso, este homens são quase inteiramente ignorantes no que se refere a verdadeira compreensão da Bíblia. A razão para que isto aconteça é o fato de, muitas vezes, se dar mais atenção ao que dizem os homens relativamente a Escritura do que ao que a Escritura diz de si própria.
Deste modo, no tempo da reforma, Lutero achou necessário atacar,

a incredulidade especulativa dos escolásticos, e opunha-se a filosofia e teologia que durante tanto tempo mantiveram sobre o povo a influência dominante.
O Grande Conflito, 123

Hoje, mais do que nunca, é necessário lembrar aos Adventistas do 7° Dia que,

A razão por que Ele [Deus] não escolhe mais vezes homens de saber e alta posição para dirigir os movimentos da Reforma, é o confiarem eles em seus credos, teorias e sistemas teológicos, e não sentirem a necessidade de ser ensinados por Deus.
O Grande Conflito, 457

Assim, a Teologia, ao contrário da mecânica e da cirurgia dental, não será a defesa dos que tem uma maior experiência formal. No campo do estudo da Bíblia, existe uma única exceção no que se refere aos habituais resultados do estudo. A menos que guiado pelo Espírito Santo, o homem pode estudar incessantemente as Escrituras e extrair conclusões exatamente opostas ao que a Bíblia ensina. Existe, deste modo, um aparente paradoxo, pelo que,

Homens que tem pouca instrução colegial são por vezes chamados para anunciar a verdade, não porque sejam ignorantes, mas porque não são demasiado pretensiosos para ser por Deus ensinados. Aprendem na escola de Cristo, e a sua humildade e obediência torna-os grandes. O Grande Conflito, 457, 458

Não é, pois, de admirar que,

Ao chegar o tempo para que ela [a terceira mensagem Angélica] seja dada com o máximo poder, o Senhor operará por meio de humildes instrumentos, dirigindo a mente dos que se consagram ao Seu serviço. Os obreiros serão mais qualificados pela unção do Seu Espírito do que pelo preparo das instituições de ensino.
O Grande Conflito, 612

Então cumprir-se-á, em grande medida, a promessa de Cristo,

Quando vier, porém, aquele, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade. João 16:13

Uma segunda tendência que conduz muitos do nosso povo a aceitar o erro é o uso (como prova) de inúmeras referências que pouco ou nada tem a ver com o ponto que se quer fazer notar. Muitas vezes, quando estes textos são apresentados, a sua relevância para o ponto de vista apresentado é tênue (pouco espesso; delgado, fino), sendo isto o mínimo que se poderá dizer. A falha de alguns dentre nós, que decidem verificar certas reivindicações doutrinarias através de um estudo cuidadoso, leva muitos a aceitar que essas afirmações tem validade escriturística. Certamente que insistimos em que todos os textos que sirvam de prova sejam citados, em vez de se lhes fazer somente referência.
A visão protestante relativamente à interpretação bíblica sempre se baseou no são principio de que os textos inconclusivos fossem interpretados a luz de textos mais positivos e claros. Na sublevação(4) doutrinal que se encontra em curso na nossa igreja, e muitas vezes adotado o método contrário de interpretação. Os homens tentam explicar afirmações inequívocas da Bíblia e do Espírito de Profecia através do uso de passagens inconclusivas, tiradas dessas mesmas fontes inspiradas. Tais técnicas inválidas podem ser enganosas, servindo meramente para refutar as mais claras palavras da inspiração, adaptando-se aos pontos de vista do teólogo.
Muitos dos que professam este novo adventismo proclamam em alta voz o virtuoso princípio protestante conhecido como Sola Scriptura. No entanto, um estudo cuidadoso dos seus pontos de vista leva-nos a concluir que seguem o princípio do sola theologian. Assim, ao citarem, direta ou indiretamente, os teólogos iminentes(5), a verdade de Deus é frequentemente confundida.
Sem dúvida que o verdadeiro problema da nossa igreja se centra no trágico fato de que a maior parte dos nossos teólogos não somente se sentou aos pés de teólogos desencaminhados, mas também absorveram inconscientemente os seus erros. Tal como o Santo Império Romano, que não era nem Santo, nem romano, o novo adventismo nem é novo, nem é Adventista do 7° Dia. São os antigos erros do protestantismo trazidos de volta como "nova luz" para a igreja de Deus, igreja essa que tão poderosamente os rejeitou quando estas congregações se tornaram na Babilônia dos últimos tempos em 1844.

1. O significado das palavras, por oposição à sua forma.
2. Produto da imaginação, sem consistência ou fundamento real; ficção, ilusão.
3. relativo ao clero; favorável ao clero ou à Igreja. Autoridade religiosa.
4. Rebelião individual ou em massa; levante, revolta.
5. Que ameaça se concretizar, que está a ponto de acontecer; próximo, imediato.
Fonte: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.