PECADO E PERFEIÇÃO
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Nenhum aspecto da atual controvérsia doutrinaria tem sido mais visto
como uma mera diferença semântica(1)
do que a definição de pecado. E, numa base superficial, tem que
se concordar que este mal entendido é justificado. A posição
adventista diz que, geralmente, quando as Escrituras falam de pecado, referem-se
à violação da vontade de Deus. Então, o homem perfeito
é o que obedece, impelido pelo poder de Deus, a tudo o que Ele lhe revelou.
O novo adventismo, por outro lado, vê o pecado como um
afastamento da vontade infinita de Deus e, por isso, a perfeição
é obediência a esta vontade infinita. Algumas das pessoas mais
proeminentes do novo adventismo chegam mesmo a declarar que
tudo o que não se aproxime do conhecimento total é pecado. Embora
não seja essa a intenção, tal afirmação quererá
significar que nenhum ser criado é ou poderá ser perfeito, incluindo
os anjos e os santos redimidos. Naturalmente que, nesta perspectiva, o simples
fato de nos esquecermos do nome de alguém que conhecemos poderá
ser considerado como pecado. Confunde-se, geralmente, o pecado per se(2)
e o fato de termos uma natureza pecadora, mas o adventismo ensina que só
pecamos quando cedemos à tentação.
Assim, muitos olham para a diferença entre os dois pontos de vista como
sendo simplesmente uma das definições de pecado. Estas pessoas
acham que os adventistas do 7° dia estabelecem um baixo padrão de
pecado sobre o qual obterão a vitória, enquanto que o novo
adventismo estabelece um alto padrão para o
pecado, do qual ninguém sairá vitorioso. Esta linha de argumentação
segue afirmando que os que aceitam a alta definição de pecado,
estão a confessar que é possível obter-se a vitória
sobre o pecado, tal como é explicado pela baixa definição.
Tal afirmação tem persuadido muitos adventistas do 7° dia,
principalmente porque está de acordo com os fatos. Mas é uma afirmação
que contém uma falha seria e é esta falha que destrói inteiramente
o conceito de que tudo não passa de uma diferença semântica.
A situação torna-se mais difícil pelo fato de muitos dos
que defendem o novo adventismo declararem que acreditam na vitória
sobre o pecado, tal como é definido pelos que aceitam a baixa definição.
Algumas destas pessoas, sem duvida, acreditam plenamente nisto. Outras não.
Utilizam a sua alta definição de pecado como argumento de que
o pecado, tal como definido num sentido mais baixo, não pode ser vencido.
Existe um certo sentido fatalista ao se aceitar que a eternidade é oferecida
aos que continuam em pecado de limitações. Isto é compreensível.
se uma pessoa pode ser salva, mesmo que persista num certo tipo de pecado, não
existe razão para se suspeitar que não possa ser salva, mesmo
que persista noutro tipo de pecados. Assim, a alta definição de
pecado é usada para classificar muito por baixo o padrão de obediência
que Deus requer, enquanto que, paradoxalmente(3),
a baixa definição de pecado eleva o padrão da obediência
exigida por Deus. A alta definição de pecado é utilizada
para negar que
Aquele que diz estar nele, também deve andar como ele andou. 1 João 2:6
Por outro lado, a baixa definição de pecado faz
com que os seres humanos olhem para Cristo como o seu exemplo de obediência.
Na realidade, se acreditarmos que Deus não nos dá poder para vencer
todos os pecados, inclinar-nos-emos a concluir que Deus não nos poderá
conceder o poder para vencermos qualquer pecado. Algumas pessoas acreditam poder
mencionar quais os pecados que Deus nos pode ajudar a vencer e aqueles que não
pode. Outras sugerem o fator temporal - às vezes, Deus pode conceder-nos
a vitória sobre todos os pecados. Mais uma vez, somo capazes de saber
quando Deus nos pode conceder a vitória e quando não pode. Estranhamente,
alguns dos que proclamam a alta definição de pecado declaram que
Cristo não faz qualquer provisão(4)
para o pecado deliberado depois da conversão, embora se apressem a dizer
às suas congregações que Davi estava salvo quando perpetrou(5)
o seu terrível pecado de assassínio. O castigo de Core,
Datã e Abirão tem sido utilizado como exemplo do não perdão
para o pecado deliberado, mas tal prova não pode ser apoiada a luz do
perdão de Deus para os atos pecaminosos deliberados de Adão, Abraão
Jacó, Davi, Pedro e muitos outros.
A clara mensagem de Deus é que ele nos pode conceder a vitória
sobre todos os pecados sempre, não para glorificação do
homem, mas para que seu caráter possa ser justificado (perdoado). A alta
definição de pecado é utilizado muitas vezes como argumento
para anular este fato.
Ninguém diga: Não posso remediar os meus defeitos de caráter. Se chegardes a esta decisão, certamente deixareis de alcançar a vida eterna. Parábolas de Jesus, 331
Passaremos a ilustrar o modo como esta alta definição é utilizada na prática. Lembraremos os leitores de que um dos proeminentes apoiantes do novo adventismo declara que:
A santidade humana nesta vida é, na verdade, uma quimera(6) (Dr. Ford, Sinais dos Tempos - Edição Australasiática, Fev. 1978).
Esta avaliação pessimista baseia-se na alta definição
de pecado. Contudo, nós iremos ver que esta alta definição
é utilizada para promover, na realidade, o mesmo baixo padrão
que lança a duvida sobre o poder regenerador de Deus.
Nesse mesmo artigo, o autor cita um artigo bastante perturbador, retirado de
Spectrum e que se refere à obediência. Este artigo é citado
como documentação de apoio a tese básica do autor de que
a santidade nesta vida e impossível.
Reproduzimos toda a citação, tal como aparece no artigo de Sinais
dos Tempos. Deverá ser lida muito cuidadosamente, pois expõe as
grandes dúvidas que o novo adventismo promove relativamente
ao poder que Deus concede a alma arrependida, para a obtenção
da vitória.
Há muito que suspeito os que acreditam na perfeição
agora, não conhecem exatamente as suas implicações. Significa
não somente guardar a lei de Deus sem qualquer falta como também
aproveitar todas as oportunidades para se fazerem boas obras, mesmo que isso
implique sacrifício pessoal. Significa viver em austeridade(7)
e dar tudo o que pudermos aos pobres e ao avanço do Evangelho. Significa
retribuirmos sempre o mal com o bem e nunca abrigarmos qualquer ofensa contra
outra pessoa, nem por um momento. Significa nunca permitirmos que um pensamento
impróprio penetre na nossa mente no dia de Sábado (ou noutro qualquer
dia)*, sempre interpretar de um modo caritativo
o comportamento dos outros, nunca expressarmos a nossa ira sob qualquer uma
das miríades(8) de formas
sutis(9) para as quais sempre nos inclinamos, mostrando-nos
sempre alegres e sem nos queixarmos em tempos adversos. Ser-se perfeito também
significa que, quando refletimos na nossa vida, nos nossos momentos de oração,
nunca sejamos capazes de descobrir um único aspecto, quer de ação,
quer de omissão, em que o exemplo de Jesus seja insuficiente. Fazer tudo
isto (e mais) sem nunca termos um pensamento de congratulação
própria!
Quando penso no que a perfeição realmente significa em termos
realistas, sinto-me tentado a dizer aos que consideram ser a perfeição
possível; "Oh, deixem-se disso! Quem estão a tentar enganar?
(Reo M. Christenson, Spectrum, vol. 8, #4, citado nos Sinais dos Tempos, Edição
Australasiática, Fev. 1978).
*Assumimos que o autor esteja a falar de "acariciar-se um pensamento mal"; pois as tentações de Satanás podem penetrar na nossa mente em qualquer altura. A nossa resposta a tais tentações determina se a tentação se tomara ou não em pecado.
É de notar que qualquer falha na satisfação
do plano de Deus, citado texto acima, é pecado, quer se aceite a baixa
definição de pecado, quer aceitamos a alta definição.
Deste modo, temos agora a oportunidade de comparar os efeitos práticos
das duas definições sem recorrermos a resolução
das sutilezas semânticas. Subscritores(10)
de ambas as definições concordarão que é um pecado
não pagarmos o mal com o bem, ou mostrarmo-nos tristes e queixosos em
tempos de adversidade, ou darmos voz à nossa ira. Mas vemos aqui o
novo adventismo a utilizar uma linguagem algo imoderada(11),
estabelecendo que a obediência, no que toca a estes pontos, é
impossível.
Assim, a alta definição é utilizada para promover um padrão
muito mesquinho.
Por outro lado, os que aceitam a visão escriturística de pecado,
tal como consistentemente ensinada pelos adventistas do 7° dia até
aos nossos dias reconhecem que todos estes pecados devem ser abandonados por
todos que invocam o nome de Cristo. Assim, a baixa definição de
pecado encoraja um alto padrão de obediência. Eleva a obediência
perante todas as vontades reveladas de Deus na vida de cada indivíduo.
Note as palavras da inspiração.
Quando Cristo reina na alma há pureza e liberdade do pecado.... A aceitação do Salvador traz paz perfeita, perfeito amor, segurança perfeita. Parábolas de Jesus, 420
E mais uma vez se lê,
O ideal de Deus para os Seus filhos é mais alto do que pode alcançar o pensamento humano. 'Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos Céus.' Este mandamento é uma promessa. O plano da redenção visa a nossa libertação do poder de Satanás. O Desejado de Todas as Nações, 330
Certamente que o padrão estabelecido perante o povo de Deus por aqueles que promovem o novo adventismo não é mais alto do que a maior parte dos pensamentos humanos. Porque, então, nos pediriam para medirmos as exigências de Deus pelo padrão de aquisição das que a nós se referem? Devemos perguntar a nós mesmos: "Acreditamos verdadeiramente que as ordens de Deus são as suas promessas?" Examinemos o conceito escriturístico de pecado. Não podemos ignorar que, tanto a Escritura, como o Espírito de Profecia falam de pecados de ignorância. Contudo, devemos investigar o use da palavra pecado, quando inepta(12) nas Escrituras. São citados, como exemplo, cinco textos da Bíblia, para que o leitor os possa tomar em consideração. Estes textos devem ser lidos, interpretando a palavra pecado do ponto de vista do novo adventismo e depois do ponto de vista adventista do 7° dia. Descobrir-se-á, então, que os textos não passariam de uma zombaria, se fosse utilizada a alta definição de pecado.
Depois Jesus o encontrou no templo, e disse-lhe: Olha, já estas curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior. João 5.14
Respondeu ela: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu te condeno; vai-te, e não peques mais. João 8:11
Acordai para a justiça e não pequeis mais... 1 Coríntios 15:34
Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. 1 João 2:1
Aquele que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele, e não pode pecar, porque é nascido de Deus. 1 João 3:9
Pela definição que a Bíblia dá de pecado, este tem
duas características evidentes:
1 - Conhecimento
2 - Volição (exercício da vontade)
Assim, o pecado é um ato premeditado e, por isso, inescusável(13).
Ao substituir a definição bíblica de pecado pela
alta definição, o novo adventismo apresenta uma
desculpa para o pecado, que é aceito demasiado rapidamente por algumas
pessoas que aderem aos falsos pontos de vista agora em circulação
na nossa igreja. Se a falta de conhecimento total é pecado e Deus não
nos revelou os Seus preceitos infinitos, quase poderemos inferir que Deus é
o autor do pecado.
A Bíblia esclarece que devemos conhecer, antes de podermos pecar.
Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado. Tiago 4:17
O próprio Jesus clarificou a questão para além de qualquer duvida.
Respondeu-lhes Jesus: Se fosseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Nós vemos, permanece o vosso pecado. João 9:41
Se eu não viera e não lhes falara, não teriam pecado; agora, porém, não tem desculpa do seu pecado. João 15:22
Nos primeiros tempos da guarda do sábado entre os adventistas, eles erradamente guardavam o sábado desde as seis horas da manha até as seis da tarde, até serem corretamente dirigidos por um anjo. A irmã White ficou perturbada por terem quebrado inconscientemente o mandamento, mas o anjo disse-lhe, em resposta a sua angustia:
Disse o anjo: “Sendo esclarecidos mas pondo de lado a luz, ou rejeitando-a, as pessoas verão cair sobre si a condenação e o olhar desaprovador de Deus; mas antes de serem instruídas, não cometem pecado, pois não existe luz para rejeitarem”. Testemunhos (em inglês) vol. 1, 116
Paulo, num dos seus famosos discursos, expressou esta mesma verdade, embora de um modo diferente.
Mas Deus, não levando em conta os tempos da ignorância... Atos 17:30
É, pois, claro que, mesmo não conhecendo a lei de Deus, alguns possam, ainda assim, ser salvos.
Há, entre os gentios, almas que servem a Deus ignorantemente, a quem a mensagem nunca foi levada por instrumentos humanos; estes não perecerão. Embora ignorem a lei escrita de Deus, ouviram a Sua voz a falar-lhes por meio da natureza e fizeram aquilo que a lei requeria. O Desejado de Todas as Nações, 694
Deste modo, o Espírito de Profecia assegura-nos que Não há desculpas para pecar. O Desejado de Todas as Nações, 330
Se adotarmos o ponto de vista que não tem onde se apoiar e que agora circula na nossa igreja, isto não será assim. Lembrem-se,
Ninguém poderá ser forçado
a transgredir. Teremos primeiro que dar o nosso consentimento; a alma deve projetar
cometer um ato pecaminoso, antes que a paixão domine sobre a razão,
ou a iniqüidade triunfe sobre a consciência. A tentação,
por mais forte que seja, nunca é uma desculpa para o pecado.
O Cuidado de Deus - MM 1995, 336
Notem que a irmã White enfatiza a volição (exercício
da vontade) como elemento essencial do pecado. Ao se reconhecer que o conhecimento
e o exercício da vontade são qualidades indispensáveis
do pecado, todo o conceito original de pecado se torna absurdo. Esta é
mais uma das invenções de Agostinho, baseada na sua educação
pagã, que foi rejeitada pelos adventistas do 7° dia, até que
o novo adventismo a tentou popularizar entre o povo de Deus
como um reforço da sua premissa(14)
de que o pecado é inevitável, diminuindo, deste modo, a
culpabilidade do homem perante o seu próprio pecado.
Notem o modo como o Espírito de Profecia, ao reconhecer o caráter
infinito da Lei de Deus, confirma que os filhos de Deus cumprirão esta
lei.
Deus requer dos Seus filhos perfeição. A Sua lei é uma transcrição do Seu próprio caráter, e é o padrão de todo o caráter. Esta norma infinita é apresentada a todos, para que não haja má compreensão no tocante a espécie de homens que Deus quer ter para compor o Seu reino. A vida de Cristo na Terra foi uma expressão perfeita da lei de Deus, e quando os que professam ser Seus filhos receberem caráter semelhante ao de Cristo, obedecerão aos mandamentos de Deus. Então o Senhor pode contá-los com toda a confiança entre os que formarão a família do Céu. Parábolas de Jesus, 315
1. Num sistema lingüístico, o componente
do sentido das palavras e da interpretação das sentenças
e dos enunciados.
2. Em si mesmo; intrinsecamente.
3. Proposição ou opinião contrária à comum.
4. Ato ou efeito de prover; provimento, abastecimento, fornecimento.
5. Cometer, praticar.
6. Produto da imaginação, sem consistência ou fundamento
real; ficção, ilusão.
7. De caráter severo, o qual se reflete na rigidez das opiniões,
dos hábitos, no rigor consigo mesmo e com os outros.
8. Quantidade indeterminada, porém considerada imensa.
9. Sutil, que não faz barulho, que é quase imperceptível;
leve, macio, suave.
10. Que ou o que assina carta ou outro documento.
11. Falta de moderação, demasiado, exagerado.
12. Desprovido de sentido; absurdo, confuso, incoerente.
13. Para o que não há desculpa; imperdoável, indesculpável.
14. Ponto ou idéia de que se parte para armar um raciocínio.
Fonte: Dicionário Houaiss da Lingua Portuguesa.