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LIVRO: “O JAZZ - do rag ao rock” págs. 131 a 135, de Joaquim
Berendt
Editora Perspectiva SPIRITUAL
E GOSPEL-SONG A cantora, cuja potência vocal e força expressiva mais se
aproxima de Bessie Smith, não é uma representante do blues e sim da
gospel-song: Mahalia Jackson, falecida em 1972. A gospel-song é o canto
religioso moderno do negro e ela se diferencia do spiritual, sua forma
tradicional, por ser mais vital, jazzística e ter mais swingue. O
spiritual Se aproximava mais do canto religioso do branco — white
spirituals —, seja ele americano ou europeu. O blues é a forma profana do spiritual e
da gospel-song.
Ou, melhor ainda, o contrário: o spiritual e a
gospel-song são a
forma religiosa do blues. A
cantora de blues Alberta Hunter chega a dizer: “O blues para mim é quase
religioso. O blues é como o spiritual, quase sagrado. Quando eu canto
blues, ele vem do fundo do coração tanto quanto uma oração.” O
cantor de blues T-Bone escreveu: “Claro
que muita coisa do blues vem da igreja! O primeiro boogie-woogie que eu ouvi
em minha vida foi na igreja do Espírito Santo em Dallas no Texas. O
boogie-woogie era cantado ali como uma variante do blues. E o pastor
pregava em tom de blues... Muitas
pessoas acham que quando eu não ganhar mais dinheiro como cantor, vou
ser pastor, pois quando eu canto parece uma pregação religiosa
...” Se alguém assistir a uma cerimônia religiosa numa igreja do
“Southside” de Chicago, não vai notar nenhuma diferença de
atmosfera entre ela e um concerto de jazz de Lionel Hampton, por
exemplo. Lá, vai ouvir os mesmos ritmos, os mesmos beats, o mesmo swing
na música e, não raro, também instrumentos de jazz, como saxofone,
trombone ou bateria. Existem músicas com baixos de boogie-woogie, com
estruturas de blues e pessoas participando ativamente do calor rítmico,
batendo palmas e até dançando. Winthrop
Sargeant descreve uma cerimônia religiosa nos Estados do Sul, da
seguinte maneira: “Os minutos passavam — longos minutos. Murmúrios
e gritos começavam-se a ouvir cada vez mais fortes e dramáticos.
Havia uma forte tensão no ambiente que ligava as pessoas, como se por
todos passasse uma corrente elétrica. As emoções se somavam como
nuvens.
Então, do fundo da consciência de um pecador, escapava um forte gemido
de causar pena, em forma de uma cadência. De um outro ponto do repleto
ambiente, se ouvia uma voz que improvisava uma resposta. O primeiro
melisma se repetia e desta vez mais forte e impaciente. Ouvia-se, então,
novamente a resposta cantada por um grande número de fiéis. A partir
dessas duas frases dadas, foi se formando um verdadeiro remoinho musical que envolveu, até o êxtase,
todos os elementos ali presentes. Assim nasceu uma música, composta por
um anônimo ou por uma coletividade, a qual também desapareceu no fim
daquela cerimônia”. As
modernas gospel-songs são em geral peças compostas e impressas por
editoras especializadas. Nas cerimônias religiosas, porém, essas
composições são tratadas livremente, quase da mesma maneira como um
instrumentista de jazz trata um tema musical. Grandes
poetas negros são, em geral, os autores dos textos das gospel-songs,
como, por exemplo, o famoso Langston Hughes, falecido em 1967. E as edições
dessas músicas atingem, às vezes, tiragens superiores às da música
popular comercial. A
mais importante cantora da gospel-song foi, e permanece sendo ainda
hoje, mesmo após a morte, Mahalia
Jackson. Nascida em
Nova Orleans, onde passou toda sua infância, Mahalia participou da grande época dessa
cidade, tornando-se definitivamente famosa em 1945, quando, no lançamento
de sua gravação Move on up a little higher, se vendeu mais de um milhão
de exemplares. A partir daí, o mundo dos brancos tomou real consciência
da arte da gospel-song. Até então não se fazia idéia do que
acontecia musicalmente aos domingos nas igrejas dos guetos e dos bairros
negros americanos. Nessa
época tomou-se consciência do grande negócio que era esse tipo de música.
Com toda a inocência deste mundo, os cantores e conjuntos gospel
apelavam aos fiéis para rezarem pelo sucesso de suas gravações. Os
“Ward singers” escreviam na contracapa de seus discos coisas assim:
“Nós pedimos sinceramente a Deus para vos abençoar e solicitamos
as vossas orações em favor do sucesso de nosso grupo”. Outros interessantes conjuntos e cantores de
gospel-song foram o “St. Paul’s Baptist Church Choir” de Los
Angeles, “The Bells of Joy”, “The Gospel-aires”, “The
Harmonizing Four”, “The Dixie Humming Birds”, os “Original
Five Blind Boys”, os “Stars of Hope”, ‘The Spirit of Memphis
Quartet”, os “Christian Travelers”, os “Sensational
Nightingales”, os “Staple Singers”, o “Golden Gate Jubilee
Quartet”, os “Pilgrim Travelers”, “Dorothy Love Coats e seus
Original Harmonettes”, “R. H. Harris and The Christland Singers”,
os ‘Stars of Faith”, os “Robert Patterson Singers”, Brother
Cleophus Robinson e, sobretudo, o falecido
bispo Kelsey, com sua congregação de Washington. É interessante notar em vários de seus discos, como em
“Little boy”, por exemplo, como o pastor Kelsey, no decorrer de uma
pregação, vai transformando o discurso em canto, sendo em seguida
correspondido pelo canto da comunidade de fiéis. As cantoras da
gospel-song que chegaram mais próximo de Mahalia foram Marion WiIllams
e Bessie Griffin. Muitos pregadores e cantores de gospel cantam em falsete,
atingindo, com sua voz, os registros de contralto e soprano. Essa prática
tem origem na África, onde era sinônimo de autentica masculinidade. O
canto em falsete foi muito usado no spiritual, no gospel, no blues e também
no jazz moderno — ouça-se Leon Thomas — assim
como no moderno rock e no soul — especialmente Peter Mayfield. Existem também gospel-songs com ritmo de hillbilly, cowboy,
mambo, valsa, e boogie-woogie, sendo que o mais constante é o uso do
beat jazzístico. É
muito comum comparecer no texto de uma gospel-song — assim como no
blues — elementos da vida Cotidiana, como eleições, arranha-céus,
trens, telefones etc. Embora soe convincente, talvez pela ingenuidade, não
deixa de ser curioso ouvir o cantor dizer que quer falar com Deus pelo
telefone ou que pretende fazer uma viagem aos céus num trem-expresso
pullman... O spiritual e a gospel-song não são, como alguns
imaginam, coisas típicas de alguma região dos Estados do Sul, algo
histórico ou dos ‘primórdios do jazz. Muito ao contrário, eles
permaneceram vivos e se desenvolveram criativamente, exercendo influências
nos diversos tipos de música negra, particularmente no jazz. Milt
Jackson, que durante dez anos foi o vibrafonista-líder do jazz
moderno, declara: “O que é alma no jazz?
você exteriorizar musicalmente aquilo que realmente sente. No
meu caso, o que sinto é a música que eu ouvia e da qual participava em
minha igreja desde criança. Muitas pessoas me perguntam de onde eu
tirei o funky-style. Ele veio da igreja”. Numa contracapa de um disco do organista e cantor do rhythm
and blues Ray Charles, escreveu Gary Kramer: “Infelizmente poucas
pessoas sabem da íntima relação existente entre a música religiosa
negra e o jazz.” Músicos
como Milt Jackson, Horace Silver, Ray Charles conduziram, na segunda
metade dos
anos 50,
uma forte
onda de
soul, a
qual vinha
diretamente do
gospel e influenciou fortemente a música pop
dos anos 60. Alguns dos mais famosos cantores do rock e do soul dos anos
60 e 70, seriam inconcebíveis sem o background do gospeL Otis Redding,
Aretha Franklin, Little Richard, Wilson Pickett, James Brown e Isaac
Hayes, são alguns deles. O
soul nada mais é do que o gospel secular. E não é de estranhar que
cantoras do soul, como Aretha Franklin, por exemplo, prefiram Cantar em
igrejas gospel, para um público negro.
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